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11/10/2012 - Jogue o Currículo Fora!
 

Luiz é recrutador da empresa XYZ. Estava com a responsabilidade de contratar determinado especialista para a empresa e, de repente, após seis meses de longa busca no mercado, chegou a suas mãos um currículo que parecia ser a salvação da lavoura.

O candidato se chamava Eduardo. O currículo mostrava nível super adequado de formação. Ele tinha experiência internacional - atuou em duas empresas na Europa. Eram experiências curtas, mas significativas. Eduardo se dizia autodidata, com disponibilidade para viajar bastante, capacidade para liderar times multifuncionais, sólido conhecimento em planejamento e perfil empreendedor.

Luiz pensou: "Ótimo, agora só falta uma coisa". E seguiu para o passo seguinte: verificar a presença do candidato na internet. Isso agora é rotina na empresa de Luiz. Ele constatou que Eduardo contribuia para dois blogs, nos quais escrevia sobre as áreas em que atua, sempre com boas e inteligentes colocações. Luiz sorriu, o candidato parecia perfeito.

Porém, em questão de minutos, também descobriu que Eduardo tinha presença em outros meios na web. No Facebook, Eduardo contava as suas aventuras nas baladas surgindo em algumas fotos com bebida alcoólica nas mãos, às vezes parecendo estar bêbado. No Twitter, escrevia sobre qualquer coisa, muitas vezes usando palavrões e satirizando o comportamento de pessoas públicas, como artistas e políticos. Vasculhando um pouco mais, Luiz encontrou citações dele em blogs e fóruns, onde falava mal do empregador, inclusive contando fatos internos das empresas onde trabalhou.

Luiz apresentou na empresa o currículo e o que achou na internet sobre o candidato. Houve três reuniões sobre o caso, com discussões acaloradas, cuja conclusão foi: "Apesar de o candidato ter o perfil profissional desejado, ele não atende ao perfil de pessoas que queremos ter dentro da empresa. Vamos continuar procurando candidatos".

Luiz telefonou ao candidato e explicou o ocorrido. Eduardo alegou que a empresa investigou sua vida particular e que isso não havia sido legal. Luiz disse que ele estava enganado, pois tudo que a empresa havia levantado era público, afinal tinha por base registros e rastros que o próprio candidato deixara na web.

O candidato se sentiu punido injustamente, dizendo que concordava que escreveu algumas coisas inadequadas na rede, mas que estava o tempo todo tentando apenas ser engraçado. Para ele, nada daquilo deveria ser levado a sério, pois havia sido apenas uma brincadeira.

O caso é complexo, apesar de simples. Existe uma distância enorme de percepção entre o que a empresa e Eduardo pensam. Para a companhia, o caso é grave, pois Eduardo é bom profissional, porém com questionável comportamento pessoal. Para o candidato, aquilo tudo na web era brincadeira sem importância. O caso é verdadeiro. Obviamente, todos os nomes foram trocados. Situações assim devem estar ocorrendo aos montes dentro das empresas.

Pesquisa conduzida pela Robert Half em 2011 mostrou que 44% das empresas brasileiras usam redes sociais para avaliar candidatos e 39% delas afirmam que falariam com o candidato antes de decidir sobre a contratação. Mas o dado que mais me chamou a atenção foi saber que 17% das empresas brasileiras disseram que não deixariam de contratar um candidato com ótimo currículo devido a alguma informação negativa ou foto inadequada em seu perfil no Facebook, Twitter ou Orkut.

A pesquisa ouviu 2.525 profissionais de dez países. O Brasil e a Itália aparecem na pesquisas como as nações em que os empregadores são mais influenciados pelas redes sociais na hora da contratação.

Acredito fortemente que os currículos, como conhecemos hoje, estão com os dias contados. Num curto espaço de tempo, os recrutadores vão obter os perfis dos candidatos diretamente na web, analisando os rastros e comportamento deles na internet de maneira muito mais rigorosa e profissional do que fazemos hoje.

Sistemas e ferramentas de análises de dados cada vez mais sofisticados estão ficando disponíveis e serão usados para isso. Aliás, isso já está acontecendo, mas o processo vai se acelerar e será dominante nos próximos anos. Não há como escapar. Portanto, cada um de nós deveria traçar uma estratégia de presença na rede, pois ali é um arquivo vivo de nossas preferências, valores e crenças. E, atenção, tudo que a internet capturar, não dá para apagar.

 

Estadão 19/08/12 - http://www.estadao.com.br/noticias/impresso%2cjogue-o-curriculo-fora-%2c918669%2c0.htm



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